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“Sebastião Toupeira”: António Galamba e a resistência ao fascismo

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“– Pai, o que é a liberdade? (…)
– Liberdade é a cor. (…)
– Por que prendem os Guardas do Alibácoro quem procura a cor? (…)
– Porque quem vê cores, e não apenas as sombras como as que nos obrigam, escolhe o seu caminho.”

 

“O poder inventou fronteiras. A amizade profunda arrasa-as.” É assim que o escritor, antropólogo e fotógrafo António Lains Galamba justifica que a apresentação do seu último livro arranque em Espanha, no limite noroeste da Estremadura, e não no Alentejo, geografia física e humana de eleição do escritor. Com lançamento programado para o mês em que se assinalam os 40 anos da revolução dos cravos, Sebastião Toupeira marca o regresso do antropólogo e fotógrafo às edições de autor.

A sessão inaugural realiza-se a 10 de Abril, às 10:15 (hora local), no Instituto de Ensino Secundário Val de Xálima, em Valverde del Fresno (Cáceres). Seguem-se Aljustrel (dia 26), Beja (Maio), Ourém (1 de Junho), entre outros locais e datas a confirmar como Castelo Branco (5 de Julho) ou Guarda, cidades que também deverão acolher a mostra com as treze ilustrações de Roberto Chichorro que dão vida à obra.

O desafio partiu de um amigo do jovem, Daniel Berrocal, que se encontra a leccionar português na localidade estremenha onde são claras as semelhanças do galego e da língua de Camões com a fala, dialecto comum a outras duas aldeias fronteiriças da comarca da Serra de Gata. Por ali, o encontro de culturas em ambiente escolar já não é novidade, posto que em Novembro aquele liceu e o vizinho Colégio de Nossa Senhora da Assunção promoveram o primeiro intercâmbio luso-espanhol, levado a cabo com a Escola Básica e Secundária Ribeiro Sanches, de Penamacor.

Natural de Coimbra (“fui lá nascer” em 1981) mas alentejano por adopção, Galamba rendeu-se à “heróica planície” que “tinha de ser a pátria da maioria dos navegadores” e se inicia nos olhos das velhas”. “Olhos incendiados” de “gente profunda, à “espera de cansaço” num “silêncio dorido mordendo a cal”. Nesta obra sobre as míticas toupeiras vermelhas, e que se destina a um público mais novo do que o habitual (“entristece-me que as crianças não saibam o que é o 25 de Abril”), o escritor regressa ao universo soalheiro de montados e searas, aperfeiçoando os “sonhos nunca gastos da infância”.

Viagem guiada por uma figura de verticalidade rara para os padrões actuais, a qual demonstra “como se constrói um mundo livre de tiranos. De acordo com o autor, também palhaço e balonista, “o livro conta o que foi a resistência ao fascismo, fazendo um paralelo com o trabalho anterior”. Para isso, vale-se mais uma vez do talento de Chichorro, sendo no entanto esta a última obra do género a que o artista plástico moçambicano dá forma e colorido, pondo fim a uma carreira de meio século.

Em 2003, Castro Verde chamou António Galamba para um estágio, mas foi Aljustrel, sua “pátria amada”, que o fez levar mais longe o interesse pelo povo e a paixão de sempre pelas histórias de vida. Posto quetodo o homem é um verso nunca lido”, “luz” que sempre se apaga, “o dever de um antropólogo é devolver a voz a quem não pôde escrever a sua história”, justifica. Da troca de experiências entre desconhecidos que se tornaram amigos, e da vontade de contrariar o “branqueamento” histórico, posta à prova ao longo de vários anos, surgiu Mineiros de Aljustrel, nas barrenas da memória – trabalho e resistência sob o fascismo, editado em 2011.

Súmula dos testemunhos de cinco operários que, na clandestinidade de onde brota a camaradagem, resistiram à ditadura, mas não escaparam à cárcere e aos métodos de repressão do Estado Novo. “Para quê o dedo do investigador, se as histórias eram tão ricas e falavam por si? Eu não escrevi nenhum livro. Só fui a cola e devolvi estas letras a alguém”, argumenta o jovem, que em 2012, acompanhado pelo Grupo Coral do Sindicato Mineiro de Aljustrel, esteve em Castelo Branco, na Casa do Arco do Bispo, para dar a conhecer este livro e as ilustrações a tinta da china que o acompanham.

E se é enquanto académico e cidadão activo que o militante comunista, que já integrou um grupo de cante alentejano e editou dois álbuns onde fez o estudo etno-musicológico, acredita contribuir para a transformação política e social do Alentejo, quanto à ficção é na poesia, e sob o pseudónimo de Lains de Ourém, que António Galamba se sente como peixe na água. A mesma que alimenta a frescura dessa “terra rasa” (“rente ao subsolo prometem as raízes já os frutos”“junto ao musgo sibilam os desassossegos”) transformada em “cal ante o deserto do restolho”. Pátria das tabernas, esses “faróis ao cansaço dos homens, teimando ante a canícula a fúria de estarem vivos”, sul remoto onde a esperança é efémera (Todas as ribeiras / Morrem afogadas / E as aves caem / Como chumbo”), as raízes “o amor na versão da sede”, e em que se chora a morte de uma oliveira velha.

“Como a prosa exige mais tempo e a capacidade de criar enredo, uso-a sobretudo em artigos de opinião”, esclarece o também colunista do jornal Notícias de Ourém e autor do blogue Cravo de Abril. Página virtual onde, por entre considerações políticas sobre a liberdade, sobressaem pedaços de uma poética cúmplice com a seiva humanista de Alexandre O’Neill, António Gedeão, José Gomes Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Ary dos Santos, David Mourão Ferreira, Jorge de Sena ou Mário Castrim.

A nível editorial, primeiro foram As gentes e as arestas: a memória dos homens em viagem (Som da Tinta, 2003), com o antropólogo e músico Ricardo Santos, dos Velha Gaiteira. Mais tarde, em Casa das Glicínias (2013), junta-se-lhes a fotografia de João Galamba de Oliveira, reforço das emoções poéticas aqui convocadas pelas lembranças (defraudadas ou não) dos dois irmãos. Ou não se tratasse da casa onde ouvi tocar o Alvim que acompanhou o Paredes, onde muito brinquei na infância”, diz o escritor, confessando sem reservas: “Ainda hoje tenho essas flores que sempre me invadem a memória.”

De regresso à antropologia, António Galamba está a preparar O mapa da minha aldeia é um punho fechado – trabalho e resistência sob o fascismo, estudo concentrado na freguesia de Couço (Coruche). E mesmo que até ao momento não tenha produzido nenhuma investigação sobre outra realidade social não menos penosa, a dos beirões que iam para o Alentejo trabalhar em actividades agrícolas sazonais, “sempre me interessou a sua imagem na literatura neo-realista”, refere o autor. Nessa linha, invoca quer os pontos de vista de Alves Redol e Fernando Namora sobre os célebres “ratinhos”, quer as referências que a eles faz em mais uma das suas obras, Assalariados Agrícolas de Ervidel – trabalho e resistência sob o fascismo, lançada em 2009.

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“Enquanto, atabalhoadamente, tentava deitar para a lareira os «Adiante!» que tinha para distribuir naquela semana, uma pergunta correu-lhe o corpo varado pelo frio da injustiça: quem o teria denunciado?”

 

Contra a “engrenagem do esquecimento e da massificação”

Em Castelo Branco, para além da apresentação na Casa do Arco do Bispo, a cargo de Ricardo Santos, a sessão contou com um momento musical do Loco Trio e com a abertura da mostra de ilustrações de Roberto Chichorro, a qual poderá ser visitada no local até 24 de Julho. O anfitrião começou por dizer que Sebastião Toupeira lhe lembra o tema Eu vou ser como a toupeira (a tal que esburaca), de Zeca Afonso, e a música de Carlos Paredes ou John Coltrane. “Ainda não sei é se é um livro infantil para adultos ou um livro de adultos para crianças.”

Acompanhado por um pequeno glossário de apoio à leitura, nele fala-se de prisão, censura ou guerra, temas a que hoje, no seu entender, não se dá o devido valor. E realça a preocupação com o futuro, a acção pedagógica das artes quando a inércia crítica e a passividade são a norma. Lição a reter: “Não devemos tomar as coisas como certas.” Dada a universalidade da mensagem da obra (“o que aqui se passa, passa-se todos os dias em todo o mundo”), Ricardo Santos apela à reflexão das próprias crianças – até porque estas “já têm maturidade para pensar” -, ao ganhar de consciência, terreno fértil para a acção. “É importante fazê-lo cada vez mais cedo.”

“Não sei escrever para a infância, mas este livro acaba bem, com esperança”, reitera António Galamba. Contudo, tendo em conta que “a criança é a máscara do velho” (Mário Cesariny), “era bom que nas escolas se falasse mais do 25 de Abril, não como uma quebra com o passado, mas como a conquista de um novo tempo.” E ainda que sem o referir, parte do aforismo do poeta, ensaísta e filósofo espanhol Jorge Santayana (“aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo”), recordando que “somos um povo esquecido.” Ante um “sistema de branqueamento da memória” onde não faltam os exemplos de repressão social e política, razão maior para contrariar a “engrenagem do esquecimento e da massificação”, vem ao de cima a frase dos mineiros de Aljustrel: “a coisa mais triste por que um homem pode passar é esquecer o pão com bolor que comeu.”

Quanto à narrativa, e numa edição de autor onde não falta a meta-crítica aos “falcoeiros da escrita” e às editoras que obrigam a “pagar nove em cada dez livros vendidos”, António Galamba baptizou o ditador em causa de Alibácoro, animal imaginário mas cuja designação em Aljustrel (onde, tal como as toupeiras do povoado fictício, se celebra o 25 de Abril com um piquenique junto à represa) assume a forma de insulto. Graças ao déspota “franzino, delgado e com ar de rato sovina”, “a tristeza abatera-se sobre o país e sobre a pequena aldeia das toupeiras”. Um estado onde estas criaturas pareciam condenadas a arrancar minério do fundo da terra, à pobreza e à “tristeza maior da fome”.

Sebastião Toupeira, “trabalhador, honesto mas também teimoso”, era um dos que resistiam na clandestinidade. O medo e a tortura na prisão não o impediam de se comportar como homem. Da luta à guerra, ele o outros bichos eram vigiados e encarcerados, militantes de todo o tipo (macacos, elefantes, papagaios, gralhas, rinocerontes, gatos, cães ou crocodilos) do partido que, segundo o narrador, se deveria chamar antes Inteiro, dado unir os trabalhadores contra quem os impedia de serem donos de si e do seu país, os privava de futuro. Na camaradagem e no Adiante! encontravam o alento, aí onde se “falava numa sociedade sem pobres”, e os animais viviam juntos, “partilhando a beleza da vida (às cores), e não a morderem-se e a explorarem-se.”

Ironicamente, a alegoria de António Galamba lembra O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, fábula onde o escritor inglês, para quem a cobardia intelectual é uma ameaça tão grande como a auto-censura, satiriza não só a política estalinista da antiga União Soviética, como reflecte sobre a corrupção ou a liberdade de expressão.

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